sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O problema dos Universais na Idade Média

Na Idade Média foi grande o debate sobre o problema dos universais. Este é um problema que diz respeito à idéia e sua relação com a realidade (entre você e res). Existem 3 linhas de pensamento:

1) os realistas
2) os nominalistas
3) os realistas moderados

Os Realistas:

Para estes a essência enquanto tal subsiste por sim mesma, ou seja, tem existência própria. Basta lembrar de Platão com seu mundo das Idéias onde a essência possui uma realidade fora das coisas que seriam apenas cópias da Idéia. Por exemplo, a essência humana existiria fora dos homens concretos, ou seja, fora do João, do Pedro, do Joaquim, etc, e teria uma existência própria. Esta é a posição de Guilherme de Champeaux, de Gilberto de la Porrée e de David de Dinant.

 
Os Nominalistas:

Para estes não existiria uma essência, nada existiria fora da individualidade. As coisas seriam tão diferentes umas das outras objetivamente, ou seja, na realidade, que não teriam nada em comum; todo conceito universal existente em nós, estaria apenas em nossas idéias e portanto seriam apenas nomes coletivos que damos às coisas. Por exemplo, o João, o Pedro, o Joaquim etc seriam tão diferentes na realidade que não se poderia dizer que eles têm algo em comum e portanto toda tentativa de os agrupar seria um ato totalmente subjetivo. Esta é a posição de Roscelin e de Guilherme de Ockham.



Os Realistas Moderados:
Para estes tudo é individual, i.é., não existem seres universais com existência própria fora das coisas individuais, mas, diferentemente dos nominalistas, os realistas moderados defendem que a razão humana é capaz de fazer abstração das coisas individualizantes e apreender no individuo aquilo que ele tem em comum com outros. O universal só existe na inteligência e não na realidade, mas aquele tem por fundamento esta, não são apenas idéias sem vínculo com a realidade como querem os nominalistas. Esta forma de pensar denota o que é comum, ou seja, o modo de ser que é comum a todos os indivíduos da mesma espécie. Por exemplo, o João, o Pedro, o Joaquim etc têm em comum o nosso modo de ser, i.é, são homens e o intelecto faz abstração das notas individuais e exprime aquilo que nós temos em comum (ser homem) por meio de um conceito. A essência existe individualizada no ser e o intelecto, fazendo abstração do que é individual, faz surgir no conceito o que é universal (que compreende todos os indivíduos daquela mesma espécie). Esta é a posição Pedro Abelardo e de São Tomás de Aquino.

COMPREENSÃO E EXTENSÃO

Um conceito pode ser visto de dois modos:
1) enquanto compreensão
2) enquanto extensão


Enquanto compreensão:

Enquanto compreensão o conceito se refere às notas (ou aspectos inteligíveis) que sustentam uma determinada essência.
Ex1.: Animal possui as seguintes notas: é uma sustância, é um corpo vivo, é dotado de sensibilidade;
Ex2.: Homem possui as seguintes notas: é uma sustância, é um corpo vivo, é dotado de sensibilidade, é racional.
Como se pode notar a diferença entre homem e animal é apenas uma nota: a racionalidade; portanto o conceito Homem é superior, maior, que o conceito Animal, pois possui mais notas.

 Enquanto extensão:


Enquanto extensão o conceito se refere ao número de indivíduos que determinado conceito abarca, i.é. se refere à amplitude do conceito.
Ex1.: Animal se refere a todos os indivíduos que possuem sensibilidade
Ex2.: Homem se refere a todos os indivíduos que possuem alma racional
Como Homem possui sensibilidade o conceito Animal abarca o conceito Homem enquanto extensão, sendo, portanto, Animal superior a Homem

Uma Lei Geral no que concerne a Compreensão e a Extensão de um conceito é que estas são inversamente proporcionais, ou seja, quando maior a compreensão, menor a extensão e vice-versa: quanto maior a extensão, menor a compreensão.


Diferença entre Realistas moderados e Nominalistas:



Para os nominalistas, o que constitui primeiramente um conceito é a sua extensão;
Para os realistas moderados, o que constitui primeiramente um conceito é sua compreensão.

Para os nominalistas, o que o conceito representa de real são os indivíduos;
Para os realistas moderados, o que o conceito representa de real são as essências.

Para os nominalistas, o conceito é subjetivo, pois não existe essência em si mesmas, são as idéias que fazem a coligação das notas;Para os realistas moderados, o conceito é objetivo pois expressa uma essência que existe no ser concreto.


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O Castelo de Montaigne


O ócio e uma bela paisagem é sempre um lugar convidativo para filosofar. O velho Sócrates filosofava pelas ruas de Atenas, Platão tinha sua acadêmia, Aristóteles o seu liceu, e Epicuro um jardim exclusivo. Mas nenhum deles tinha um lugar tão glamouroso para filosofar, como Michel de Montaigne.

Michel de Montaigne nasceu em 1533 perto de Bordeaux, no sudoeste da França. Foi educado em casa e até os 6 anos só falava e entendia latim. Formou-se em Direito na Universidade de Toulouse e imediatamente ingressou na magistratura. Aos 24 anos, conheceu o escritor Étienne de la Boétie (1530-1563), com quem desenvolveu fortes laços de amizade. A morte de La Boétie causou um abalo emocional que o levou a começar a escrever. Em 1570, ele vendeu sua vaga no Parlamento (que na verdade tinha funções de tribunal) de Bordeaux, como era costume na época, e retirou-se da vida pública. Passou então a dedicar-se a escrever os Ensaios, que ele reelaborou e ampliou continuamente. Durante esse período, Montaigne alternou o recolhimento a seu castelo com idas a Paris para dar conselhos aos funcionários do reino sobre os conflitos religiosos. Em 1580, começou uma viagem de 15 meses por vários países da Europa. No ano seguinte, soube que havia sido escolhido prefeito de Bordeaux. Assumiu o cargo e manteve-o durante quatro anos. Morreu em 1592, em seu castelo, de uma inflamação nas amígdalas.

O período histórico da Renascença estava em sua última fase quando o escritor francês Michel de Montaigne (1533-1592) chegou à vida adulta. O otimismo e a confiança nas possibilidades humanas já não eram os mesmos e a Europa se desestabilizava em conseqüência dos conflitos entre católicos e protestantes. Esse ambiente refletiu-se na produção do filósofo, marcada pela dúvida e pelo ceticismo. Seus Ensaios são leitura de cabeceira de um grande número de intelectuais contemporâneos, entre eles Claude Lévi-Strauss, Edgar Morin e Harold Bloom. A obra, originalmente em três volumes, é, a rigor, a única de Montaigne – mais alguns escritos pessoais foram publicados depois de sua morte – e inaugurou um gênero literário. A palavra "ensaio" passou desde então a designar textos em torno de um assunto que vai sendo explorado por meio de tentativas (esse é o significado da palavra essais em francês), mas sem rigores de método. Muitas vezes, não chegam a nenhuma conclusão definitiva, mas convidam o leitor a considerar alguns pontos de vista. No caso de Montaigne, o gênero serve à perfeição ao propósito de contestar certezas absolutas.

Torre onde era localizada a biblioteca de Montaigne.
Sobre filosofar em um Castelo:

Montaigne “preferia passar o seu tempo numa biblioteca circular no terceiro piso de uma torre num dos cantos do castelo: «Passei aí a maior parte dos dias da minha vida, e grande parte das horas de cada dia».
A biblioteca tinha três janelas (com aquilo que Montaigne descrevia como vistas «esplêndidas e ilimitadas»), uma mesa de trabalho, uma cadeira e, dispostos em três prateleiras de estantes em semicírculo, cerca de mil livros de filosofia, história, poesia e religião. Foi aqui que Montaigne leu Sócrates («o homem mais sábio que alguma vez existiu») dirigindo-se energicamente aos impacientes jurados de Atenas, numa edição latina de Platão traduzida por Marsílio Ficino; foi aqui que leu a visão de Epicuro sobre a felicidade na obra de Diógenes Laércio Vidas, e na De Rerum Natura de Lucrécio, editada por Denys Lambin em 1563; e foi ainda aqui que ele leu repetidas vezes Séneca (um autor «espantosamente adaptado ao meu estado de espírito») num novo conjunto dos seus trabalhos impresso em Basileia em 1557”.

 
Alain de Botton, "O Consolo da Filosofia" (ed. D. Quixote), pág. 140-1


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Jardins são terapêuticos.

Áreas arborizadas: aumentam a expectativa de vida, o índice de felicidade e reduzem a criminalidade


O Prof. Frances Kuo, da Universidade de Illinois, conduziu uma revisão de vários estudos sobre os efeitos de árvores e parques nas populações das cidades.

A pesquisa mostra que as pessoas têm relações mais felizes e melhor desempenho em testes quando vivem em bairros mais arborizados. Acreditam que viver perto de parques e outros espaços verdes é essencial para o nosso físico, psicológico e bem-estar social.

Ruas arborizadas também incentivam a uma menor taxa de criminalidade e de certa forma cria uma atmosfera mais civilizada, mesmo em áreas pobres, os investigadores encontraram.

Prof Kuo disse: "Em nossos estudos, pessoas com menos acesso a natureza mostram a atenção relativamente deficiente, função cognitiva baixa, a má gestão das questões relacionada a acontecimentos diários e baixo controle do impulso pobres".





Ele acrescentou: "A relação entre o crime e a vegetação é muito clara: mais árvores, menos crimes. A vegetação incentiva as pessoas a utilizarem os espaços fora de suas casas, que prevê uma forma natural de vigilância.

Outros estudos mostraram que o nível de saúde poderia ser "previsto pela quantidade de espaço verde dentro de um raio de uma milha".

Já no Japão, outra pesquisa também descobriu que as pessoas mais velhas viveram por mais tempo quando suas casas estavam próximas de um parque ou outro espaço verde.




Em uma conferência da Associação Americana para o Avanço da Ciência em Chicago, um estudo mostrou que a presença de árvores pode reduzir a criminalidade em até sete por cento.


 Crianças com transtornos de déficit de atenção também se comportaram melhor depois de uma caminhada em um parque em comparação com aqueles que se exercitavam no interior ou em áreas sem árvores.







Uma História da Leitura

Capa da versão francesa do livro.

Um dia desses fui à livraria FNAC, queria comprar a metafísica de Aristóteles em português, mas infelizmente eu não encontrei, bem, na verdade eu encontrei, mas acabei comprando uma versão em espanhol, de Madrid. Andando pela parte de literatura estrangeira, logo vi um pequeno livro que me chamou atenção, o título em francês, “ Une Histoire de la lecture”, logo ao abrir, nas primeiras páginas, foi uma grande viagem, o autor Alberto Manguel fala sobre o prazer de uma boa leitura, e de estar na companhia de livros, o que é certamente uma das coisas que eu mais adoro. Ele também fala sobre os grandes clássicos da humanidade. Em suma, os amantes da leitura, não podem perder essa leitura fascinante.
Eis aqui uma entrevista que Alberto Manguel concedeu à famigerada Veja ( que eu detesto, mas a entrevista é muito legal)

O ensaísta argentino, naturalizado canadense, autor de "Uma História da Leitura", explica por que a palavra escrita é a grande ferramenta para entender o mundo.

O autor argentino, naturalizado canadense Alberto Manguel.
Quando tinha 16 anos, o jovem argentino Alberto Manguel trabalhava numa livraria em Buenos Aires. Certo dia, viu entrar pela porta, acompanhado de sua mãe, um homem cego, já de meia-idade, que havia encomendado uma obra esquisita – um dicionário de anglo-saxão. Todo mundo conhecia o homem: era Jorge Luis Borges, um dos mais importantes escritores do continente latino-americano e, para muitos, um dos mais importantes do século.

 Manguel atendeu o escritor. E este, quando já estava para ir embora, resolveu fazer-lhe uma proposta: que tal se nas horas livres o rapaz fosse até sua casa, para ajudá-lo com os textos que ele não podia mais enxergar? Nos dois anos seguintes, foi exatamente o que aconteceu. Ele leu em voz alta para Borges. Para si mesmo, enquanto isso, confirmou sua paixão pela leitura. Hoje, aos 55 anos, ele é um especialista de renome internacional nesse tema.

Sua obra mais conhecida é Uma História da Leitura, que, lançada pela editora Companhia das Letras, chegou a freqüentar as listas de mais vendidos no Brasil. Com justiça. Escrito em linguagem clara e atraente, repleto de histórias e curiosidades, o ensaio aborda o assunto das mais diversas perspectivas – da iniciação à literatura à relação do texto escrito com as imagens e as novas tecnologias.

Filho de diplomata, Manguel – que se lembra de ter decifrado o significado das letras de um cartaz pela primeira vez aos 4 anos – já viveu em diversos países, da Itália ao Taiti, e é fluente em cinco línguas. Atualmente, é cidadão do Canadá, "um país onde sua voz é escutada sem que você precise ser um político". Vivendo em Calgary, participa neste ano de um programa para escritores na universidade local e escreve Uma História do Amor e do Ódio, a ser lançado até dezembro. Foi lá que Manguel deu a VEJA a seguinte entrevista:

Veja – Numa época em que predominam as imagens, por que a leitura ainda é importante?

Manguel – A atual cultura de imagens é superficialíssima, ao contrário do que acontecia na Idade Média e na Renascença, épocas também marcadas por uma forte imagética. Pense, por exemplo, nas imagens veiculadas pela publicidade. Elas captam a nossa atenção por apenas poucos segundos, sem nos dar chance para pensar. Essa é a tendência geral em todos os meios visivos. Assim, a palavra escrita é, mais do que nunca, a nossa principal ferramenta para compreender o mundo. A grandeza do texto consiste em nos dar a possibilidade de refletir e interpretar. Prova disso é que as pessoas estão lendo cada vez mais, assim como mais livros estão sendo publicados a cada ano. Bill Gates, presidente da Microsoft, propõe uma sociedade sem papel. Mas, para desenvolver essa idéia, ele publicou um livro. Isso diz alguma coisa.

Veja – Que diferenças existem entre ler um livro e ler a mesma obra numa tela de computador?

Manguel – Os livros de hoje derivam dos pergaminhos e estes, das tábuas. Ou seja, são resultado de um processo que visou facilitar a vida do leitor. O formato atual do livro permite carregá-lo para qualquer lugar, folheá-lo sem esforço e anotar em suas margens. Também possibilita que saibamos exatamente seu tamanho, o que era difícil no caso do pergaminho. As palavras impressas no papel são tangíveis, você quase pode tocar a tinta, e têm uma durabilidade incrível. No museu de arqueologia de Nápoles, vi papiros queimados na erupção do Vesúvio que destruiu Pompéia. Ainda é possível ler o que está escrito nesses fragmentos. Já se um disquete cair na água o texto nele contido desaparecerá para sempre. No computador, o texto não tem uma realidade sólida, além de ser extremamente frágil – se você apertar um comando errado, adeus texto. Quando falamos em ler um livro, nosso vocabulário é gastronômico: "Devoramos um livro" ou "Saboreamos um texto". Já em relação ao computador usamos palavras que têm a ver com superfície, como "surfar na internet" ou "escanear um texto". É impossível interiorizar o texto que aparece na tela luminosa. Isso me faz pensar que não lidamos com a informática de maneira correta. Veja o caso do CD-ROM. Insistimos em utilizá-lo como artifício para enriquecer a edição de uma obra, quando o melhor recipiente para um texto é o livro convencional. A história mostra que esse tipo de problema ocorre sempre que adotamos uma nova tecnologia. No final do século passado, dizia-se que, com o nascimento da fotografia, a pintura morreria. Da mesma forma, acredita-se hoje que a mídia eletrônica substituirá a imprensa. Bobagem. Assim como a fotografia encontrou uma linguagem própria, a informática também achará a sua.

Veja – O senhor usa a internet?

Manguel – Não muito. O processo de pesquisa na internet não me leva rapidamente ao tipo de informação que busco. Estou bem mais acostumado a pesquisar em bibliotecas.

Veja – O filme Mensagem para Você mostra que as megalivrarias americanas, como a Barnes & Noble, estão abocanhando as pequenas. O que o senhor acha dessa tendência?

Manguel – Odeio a Barnes & Noble, mas não há muito o que fazer a respeito. A noção de livraria como um supermercado onde os vendedores não sabem o que estão vendendo é uma idéia infeliz, movida por razões econômicas. Para o leitor, a única vantagem é o grande número de títulos disponíveis. Houve uma perda qualitativa com o advento das megalojas, porque um freqüentador de livraria não ia a um estabelecimento apenas para comprar um livro. Ia também para conversar sobre literatura, receber recomendações de obras, ter uma seleção mais pessoal. As livrarias tinham uma identidade, ao contrário da Barnes & Noble. O mesmo raciocínio vale para uma livraria virtual, como a Amazon.

Manguel, em sua biblioteca

Veja – É melhor ler publicações sem qualidade do que não ler nada?

Manguel – Essa pergunta pressupõe que certos livros são necessariamente melhores do que outros. Não acredito em hierarquias absolutas no campo da leitura. Nos países árabes, que valorizavam a filosofia e a poesia em detrimento da ficção, As Mil e Uma Noites eram vistas como literatura barata. No Ocidente, porém, o livro tornou-se um clássico. A dimensão de uma obra depende também da experiência pessoal de cada um, de quanto sua vida foi transformada por ela. É um tanto arrogante dizer "esse é o livro que você deve ler e esse é o que você não deve". Há obras certas para diferentes momentos de sua existência.

Veja – Que autores tiveram grande influência sobre o senhor?

Manguel – Um nome que me ocorre é o do brasileiro Monteiro Lobato, autor do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Ter lido Monteiro Lobato numa certa fase de minha vida foi mais enriquecedor do que ter lido Camões, há cinco anos. Camões é interessante, levou-me a pensar em questões profundas, mas não mudou minha vida. Tive contato com as obras de Lobato aos 8 anos, logo depois de mudar para a Argentina. Eu relacionava alguns episódios protagonizados pela boneca Emília com certas dificuldades que tive na escola nova, por causa do idioma que eu não falava.

Veja – O senhor conhece Machado de Assis?

Manguel – Gosto muito do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Machado de Assis é um dos escritores fundamentais de nosso tempo. O fato de ele não ter exercido uma influência internacional deve-se exclusivamente a circunstâncias culturais e econômicas. Ele viveu no Brasil, um país remoto no século passado, apesar de seu tamanho. Se Machado de Assis tivesse escrito em inglês, ele teria sido um precursor, e não um herdeiro de determinadas concepções literárias.

Veja – O que se perde ao ler um livro traduzido?

Manguel – Tudo. Um livro é a língua na qual ele foi escrito. Sua tradução é outra obra – que às vezes pode até ser melhor do que a original. Quem sabe alemão, francês, italiano, espanhol e sueco tem a literatura do mundo inteiro a sua disposição. Se você fala apenas inglês, não. Os países de língua inglesa não traduzem muito. Têm uma cultura profundamente arrogante, que acredita que a civilização termina nos limites de seu próprio idioma.


O amigo Jorge Luís Borges, com quem compartilhou grandes leituras
Veja – Uma criança é capaz de entender obras clássicas, como as do inglês William Shakespeare?

Manguel – Não, Shakespeare escreve numa linguagem antiga. Uma criança pode entender algo desde que seus textos sejam vertidos para uma linguagem mais simples. Ainda assim, as crianças só compreenderão Shakespeare até certo ponto, dada sua parca experiência de vida e limitada formação intelectual.

Veja – As adaptações de clássicos para crianças são uma boa idéia?

Manguel – Não as acho necessárias. Por que uma criança deve ser obrigada a ler obras clássicas? Ela pode começar lendo livros próprios para sua idade e, depois de crescida, chegar a Shakespeare. Mais do que uma simplificação, a adaptação de uma obra implica uma intervenção inadmissível em seu conteúdo. No limite, ela pode tirar da pessoa o desejo de ler um clássico na versão integral. Não há por que tratar a leitura de grandes livros como obrigação. Não há prazer na obrigação e devemos ler apenas por prazer.

Veja – É correto forçar uma criança a ler?

Manguel – Da mesma maneira que não podemos fazer com que uma criança goste de alguém, não temos a capacidade de transformá-la num leitor. O que devemos fazer, como adultos responsáveis, é colocar a literatura à disposição da garotada. Uma das razões pelas quais às vezes não apreciamos um determinado livro é por termos sido forçados a lê-lo na escola ou por nossos pais terem lido e nos obrigado a fazer o mesmo. Parte da maravilha e da riqueza da leitura vem da liberdade que ela sugere e da possibilidade de vagar por florestas de prateleiras, escolhendo o livro certo para aquele momento, como se nós fôssemos seu primeiro leitor ou estivéssemos chegando a um país desconhecido. Essa é uma experiência que não devemos tirar de nossas crianças. Devemos deixá-las escolher, dizendo: "Você será uma pessoa melhor, mais feliz e mais sábia quando encontrar seu livro".

Veja – Quem lê muito necessariamente escreve bem?

Manguel – Muitos escritores preferem não ler enquanto estão escrevendo, para não influenciar seu trabalho. Mas só há uma forma de aprender a escrever bem: lendo. Lendo você pode descobrir como os escritores fizeram suas obras e ter noção do processo da escrita. Mas não há regras. O escritor inglês Somerset Maugham dizia que "existem três regras para escrever bem. Infelizmente ninguém sabe quais são elas".

Veja – A censura a livros é um instrumento válido para impedir que certas idéias perniciosas se disseminem?

Manguel – A história do livro sempre caminhou lado a lado com a censura, mas não canso de repetir: censurar é uma idiotice. Os livros banidos voltam de uma forma ou de outra, independentemente de seu conteúdo. Conheço um professor de filosofia que foi prisioneiro de um campo de concentração na Alemanha nazista. Por ter na mente muitos dos clássicos, ele servia de biblioteca viva para os outros prisioneiros. Sempre se procura desculpa para a censura. Hoje ela é a pornografia infantil. Mas a única maneira de evitar as eventuais influências negativas de um texto é por meio da educação, ensinando às pessoas como ler. Livros, por si sós, não incitam à violência ou propiciam o nascimento do anti-semitismo. O homem que matou John Lennon estava lendo O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, uma das obras mais singelas e idealistas da literatura americana.

Veja – Qual é o país que detém o maior índice de leitura?

Manguel – Estatísticas mostram que é a Islândia. O curioso é que esse dado não vem de agora. No século passado, o francês Júlio Verne criou uma interessante passagem a respeito no romance Viagem ao Centro da Terra. Ao chegar à biblioteca de Reykjavik, capital daquele país, seus heróis encontraram as prateleiras quase vazias. Os livros estavam emprestados a ávidos leitores.

Veja – Por que o analfabetismo é crônico em tantas nações, apesar de ser um problema fácil e barato de ser resolvido?

Manguel – Porque ter acesso à palavra escrita significa a possibilidade de dominar um instrumento de poder chamado linguagem formal. É na linguagem formal que estão escritos os códigos, as leis de um país. Manter grande parte da população no analfabetismo é uma das maneiras utilizadas por governantes que querem perpetuar-se no poder, sem sofrer ameaças. Mas existe outro tipo de analfabetismo – aquele definido por São Jerônimo como a "ignorância desejada", que ele considerava um pecado.

Veja – O que é a "ignorância desejada"?

Manguel – É a atitude de quem, deliberadamente, não dá importância à cultura, mesmo tendo um grau satisfatório de escolaridade. Há um grande número de analfabetos desse tipo nos países desenvolvidos.

 
Veja – O senhor tem um lugar preferido para ler?

Manguel – Adoro ler nos trens, meu transporte predileto. Gosto também de ler na cama e leio no banheiro, claro. O lugar mais desconfortável é a mesa de trabalho.



 

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A Imortalidade da Alma em Platão

Platão ao longo de sua vida convivera com diversas figuras do cenário político-cultural ateniense do (século V a. C.), Dada sua origem nobre pode compartilhar em sua juventude tanto da companhia de Crítias e Cármides (dois dos Trinta Tiranos). Há relatos de que conversava com Crátilo também na juventude, recebendo deste a influência do pensamento heraclítico. Entretanto, ao se tratar de Platão a sua relação mais próxima é com o mestre Sócrates.

Sócrates foi acusado de corromper a juventude e criar novos deuses para a cidade (difundindo idéias contrárias à religião tradicional), contudo, isso não foi empecilho para Platão deixar de relatar e analisar as teorias socráticas. Em suas obras a figura central é Sócrates. A injustiça cometida ao seu mestre dá o tom de algumas de suas obras, especificamente a do período inicial de sua produção literária conhecida como período socrático.
As noções de alma e corpo, morte e imortalidade estão presentes em quase todos os pensadores que lançaram as bases da nossa civilização ocidental. Elas entraram em nosso cotidiano por causa da fusão dessa tradição com a religião cristã. Mas ao investigarmos a origem dessas noções deparamos com a elaboração conceitual iniciada por Platão em seus diálogos. É no escopo dos textos platônicos que encontramos uma depuração de algumas teses que advém das doutrinas religiosas, principalmente o Orfismo e Pitagorismo, que mescla elementos filosófico-religiosos. O pensamento órfico influencia todo o pensamento sobre a alma posterior.


Desde o antigo mundo Grego até nossos dias permanece o desafio em busca de respostas diante da questão sobre a existência ou não da finitude da alma humana e a infinitude do Universo e da alma do homem descrita no Fédon, Diálogo de Platão (escrito por volta de 335/388 a.C.), sabe-se que o diálogo se baseia em fato real: o dia da morte de Sócrates, o que nos faz vislumbrar um tom enigmático.


Platão nos leva por uma via onde o fio condutor tem suas raízes no pensamento pré-socrático, a partir da teoria dos contrários, passando por um argumento filosófico e religioso, a reminiscência, já tratada pelos Pitagóricos e Órficos até chegar a sua Teoria das Formas, em análise aos ditos de Heráclito, Parmênides e Anaxágoras. O estudo dos argumentos sobre a existência da alma racional e imortal, descrita como o estudo do caminho para o encontro com o Bem em si, ou Dialética que para Platão é a técnica da investigação conjunta, ou seja, feita por mais de um personagem, que consiste em compor e decompor idéias, conduzindo os participantes a reunir as idéias dispersas numa idéia única – a Idéia do Bem em si.
Para Platão o uso da Dialética é o que qualifica o Filósofo como sendo aquele que busca a Verdade em si. O Filósofo é aquele que exercita a Dialética; é aquele que vai a busca da Verdade que está no Uno. Do múltiplo ao Uno, sempre. No Fédon a dialética aparece muito sutilmente na busca argumentativa que passa pela teoria dos contrários, pela teoria da reminiscência, porém somente através da dialética é que se dá a transposição do abismo que separa o sensível do inteligível, ou seja, a Dialética define o jogo do logos como possibilidade de refletir o mundo das Formas. É através do exercício Dialético, de ascese para o conhecimento, que está inserida a questão da vida e da morte no Fédon.
Platão através do mundo das formas justifica a existência do mundo das coisas sensíveis. O mundo sensível, acessado pelos sentidos e o mundo inteligível, concebido mentalmente. Para Platão a alma parece freqüentar os dois mundos. Quando está num corpo, pertence ao mundo sensível. Quando sai do corpo, na morte, habita o lugar daquilo que nunca se corrompe. Possui assim uma natureza de permanência e movimento; um ser sendo o que é. Esta dupla condição será explorada no Fédon, na busca da prova da existência da alma e sua condição e similaridade com tudo aquilo que nunca se transforma, e que lhe dá uma condição de divindade, pois, assim, e em comparação, tem os mesmos predicados que teria a Forma, bem como, mesmo sendo similar à Forma que é imutável é, em si, o próprio movimento.
À Esquerda Platão, e à Direita Aristóteles, no famoso quadro Escola de Atenas de Rafael Sanzio

A Teoria das Formas é o argumento que, sempre em graus variáveis, aparece na maioria das obras de Platão e, naturalmente, no Fédon, cujo subtítulo é o Da Alma. Pois, é neste diálogo que o filósofo compara e argumenta sobre as características da Forma e a sua similaridade com a Alma de modo mais complexo.
Os argumentos acerca da natureza da alma e sua existência, demonstrados através da fala de Sócrates, num momento em que estava preste a deixar o seu corpo é conduzido de modo a esclarecer porque a alma aceita o corpo, mesmo que por um determinado tempo; visto que o corpo não é da natureza da alma, sendo esta incorruptível enquanto o corpo está sujeito à mutação e transformação. O fundamento da metafísica platônica é fortalecido através desta capacidade da alma de habitar dois mundos, o sensível e o supra-sensível, demonstrando a sustentação da Teoria das Formas ou das Idéias. A Teoria das Formas demonstra conceitualmente o mundo inteligível, e faz deste a razão de ser do que é sensível. A alma representa, na teoria, o problema que se resume: sendo a alma eterna e racional é, igualmente, prova maior de um processo, pois é o próprio movimento.
A Teoria dos Opostos, ou seja, Teoria dos Contrários Excludentes pode ser considerada como o primeiro argumento no caminho da prova de que a alma é anterior a vida humana e que possui o dom da imortalidade, sobrevivendo a destruição do corpo. A este argumento segue-se o argumento da reminiscência, ou anamnesis, por fim vem o terceiro argumento que é o da semelhança entre a Alma e as Idéias. Este argumento visa provar que a Alma não só preexiste ao corpo (tese que Sócrates conseguiu fazer vingar com o 2º argumento), mas também sobrevive a este depois da sua morte, já que os seus interlocutores: Símias e Cebes, levantaram dúvidas quanto a esta questão, afirmando que a Alma dissipar-se-ia, provavelmente, depois da morte do corpo. Sócrates começa por perguntar quais são as coisas passíveis de se dissiparem, e quais aquelas em que nós tememos que isso acontecesse, sempre, obviamente, com o objetivo de provar que a Alma não se dissipa.
O Filósofo prossegue depois a dividir os seres em duas classes: os compostos, que tem mais probabilidade em dissiparem-se nas substâncias que os compõem, e que são mutáveis; e os simples, que sendo compostos por apenas um elemento, são menos susceptíveis de se dissolverem, já que estão reduzidos à sua natureza mais simples, estando isentos de sofrer tal processo, e que são imutáveis, portanto, Sócrates tendo conseguido a concordância dos seus pares neste assunto, avança para classificar a “realidade em si” ou seja, o mundo das Formas/Idéias, chegando à conclusão que este é imutável e “Idêntico em si”, já que, como se provou no 2º argumento (da anamnesis), as Idéias de Igual, Belo, são universais (no plano racional, não no sensível).
Após sua morte, a alma de Sócrates é imortal, e livre.
Portanto, se o mundo das Idéias é imutável, a sua natureza é simples, donde podemos deduzir que: os seres simples, não só são imutáveis, impassíveis de se decomporem, mas também são invisíveis, já que as Idéias não se vêem, recordam-se, e também perfeitos, porque as Idéias o são e estas são seres simples (não se decompõem e são invisíveis). Provado também este ponto, Sócrates prossegue para concluir que tudo aquilo que é sensível é imperfeito, logo composto, já que é passível de mudança e de transformação.
O argumento sobre as causas da geração e corrupção, que entendemos está dividido em duas vias argumentativas: a que trata da questão da participação e a que trata, em maior profundidade, da própria teoria das Formas.
Provar a existência de uma alma imortal, não prova a racionalidade da alma, ou seja, se esta alma imortal é individual, diz apenas que a morte substitui a vida e, a vida substitui a morte. Platão tenta provar no diálogo, que a alma seria um ser imortal, detentor de inteligência e movimento e esta afirmação: ser a alma imortal, é que dá a Sócrates no Fédon conforto no momento da morte, pois, lhe é acenado pelo logos, a possibilidade de uma existência bem aventurada no pós-vida. Entretanto, esta disponibilidade será apenas para a alma que, até o fim do tempo do corpo, foi pura e temperante e que persistiu no caminho da Virtude e da Bondade, o que para Sócrates, é a prática da filosofia. A alma que buscou a contemplação da Virtude em si. Este argumento vem após uma narrativa introdutória que levou o leitor ao cárcere onde está Sócrates e abre uma série de questões envolvendo a perspectiva da morte e as conseqüências do pós-morte.
No Fédon, Platão através de Sócrates tece argumentos em um debate cujo objetivo é levar os ouvintes a aceitar como possível o argumento que afirma ser a alma um ente imortal e que a mesma permanece racional após a extinção da dualidade corpo e alma. Sócrates, entretanto realça a Teoria dos Contrários levando a evidência que os opostos (vida/morte) são excludentes, visto que a morte é antagônica à vida. O processo que vai do nascer ao morrer, tem dois limites distintos: a vida, que vem da morte, e a morte que vem da vida. Entre esses dois momentos distintos (vida/morte) existe uma etapa (viver), onde um ser perfeito e eterno (a alma) partilha existência com um ente corruptível e fadado à destruição (o corpo). Sócrates argumenta que o dever do Filósofo é refletir a respeito da (morte/vida) como momentos antagônicos e excludentes e, feitas as comparações, obter como resultado a prova (primeira) da imortalidade da alma, uma realidade que antecede, transcende e perpassa o viver.
Para Platão o argumento dos contrários excludentes passa por uma investigação das oposições que ocorrem no mundo sensível mostrando as divergências encontradas entre este mundo, das sensações, e o mundo inteligível, concluindo que dos seres vivos procedem aos mortos e dos mortos procedem aos vivos. A Forma precede e prevalece ao objeto ou a cópia.
Platão desenvolve uma teoria da imortalidade da Alma tendo como alicerce uma comprovação fática: em um mesmo ser não se podem reunir predicados contrários e é de um contrário que vem o seu contrário, o Belo vem do Feio, o justo vem do Injusto, a Vida vem da Morte, etc. A Alma é que, como Forma, tem a eternidade entre os seus predicados. Assim, a Forma Vida sempre será antagônica a Forma Morte, como o Ser e o Não Ser são antagônicos.
O argumento dos contrários excludentes vem demonstrar um estado de alternância no que observamos com os nossos sentidos ou aceitamos com a nossa razão. A força do conjunto dos argumentos no Fédon é que sustenta a questão de ser a alma imortal, e que esta antecede e precede o corpo, não sendo destruída com este, nem tampouco apenas nasce nova a cada encarnação, mas persiste por todo o tempo, como entidade personalíssima e individual.
A prova dos opostos está, no diálogo, conjugada à prova da reminiscência, como parte indissociável, donde a alma é imortal e tem em si o logos, o que será lembrado por Sócrates. Deste modo, o que Platão almeja com o argumento dos contrários, na ordem posta no Fédon, é preparar o leitor para o entendimento do mundo das Formas, o que para ele, representa a Realidade em si, a Verdade em si, o Bem em si, e Conhecimento em si, aquilo enfim, que a alma contempla e se lembra, provando a sua permanência e individualidade. O antagonismo alma/corpo ou vida/morte é a parte visível, a olho humano, desta relação Forma/Simulacro, sendo este último o ente sujeito à corrupção.
O argumento dos contrários excludentes vem apenas provar um processo de vir a ser do corpo, como muitos argumentos emprestados por Pitágoras, Parmênides, Heráclito acrescendo a questão da permanência da alma como recebedora da Forma da Vida, que tem em si a imortalidade, e, portanto, não é suficiente para comprovar a permanência de uma alma racional sozinha. Por este motivo o Filósofo fará das lembranças mais um argumento da prova da imortalidade da alma. Para Platão, o conhecimento não é fruto da aquisição, mas um exercício de recordação. Uma recordação privativa da alma racional. A teoria da reminiscência se junta com outros argumentos a fim de provar se a alma é de fato imortal e personalíssima. Aprender seria para Platão um relembrar, e, a luta pelo relembrar é a obrigação do Filósofo, que é aquele que reconhece, quando confrontado, o que não foi plenamente esquecido e sabe que o seu destino, e obrigação, é percorrer os caminhos que levam ao Conhecimento em si, sendo, pois, sujeito inevitável de um processo chamado relembrar. Desse modo, este seria o primeiro passo para aceitar a teoria da anamnesis, ou da reminiscência, como argumento válido para a comprovação da imortalidade da alma, ou seja, a aceitação de que não existe, para o homem, o conhecimento. O conhecimento que ultrapassa a morte, e somente a alma, ser imortal, pode ter acesso, e que só poderá está acessível ao homem, através das lembranças deixadas no fundo da alma, sendo desveladas como segredos esquecidos, através da reminiscência de forma a encaminhá-lo ao encontro do Bem em Si.
Academia de Platão: mosaico de Pompéia, agora no Museu Arqueológico Nacional (Nápoles)
Em resumo, antes de nascermos, temos o conhecimento pleno porque, quando Forma, participamos do mundo das Idéias e das Formas perfeitas. Porém, ao nascer, esquecemos, recebemos uma cópia imperfeita (o corpo), que apenas vê sob a força e auxílio de órgãos sensíveis, cópias imperfeitas. A razão, por outro lado é o caminho que nos permite tentar visualizar o mundo dos entes inteligíveis, esta visualização se faz pela recordação daquilo que foi visto pela alma, a nossa parte incorruptível e indestrutível. E, por fim, a obrigação do Filósofo, é tentar voltar a lembrar, tentar ver: o Igual em si, o Belo em si e a Realidade em si.
A morte de Sócrates estaria vinculada à noção de participação do Bem, pois, como ele mesmo afirma, é a noção do bem, que traz na alma, que o impede de fugir e o faz submeter-se às leis da cidade, mesmo que isto signifique a sua morte, pois este é o destino dos filósofos, perseguirem sem tréguas o Bem em si, encontrando virtude no cumprir a norma da Polis, mesmo que esta lhe pareça injusta.
Todos os processos de devir comportam reciprocidade na geração de contrários. Logo, o devir é uma alternância cíclica de opostos. Por exemplo, ao aquecimento o arrefecimento, ao aumento a diminuição, etc...Estabelecendo estas duas premissas o devir como uma alternância cíclica entre contrários, é forçoso verificar que também a morte nasce da vida e a vida nasce da morte, e a sucessão destes estados (vida-morte, morte-vida) exige, como sua condição que as almas persistam algures para voltarem a reencarnar, pois, se “estar morto” e “estar vivo” são contrários, também aqui existe devir.
Assim, se é certo que o que vem do estar vivo é o estar morto, é necessário que do estar morto venha o estar vivo. Logo e para complementar o processo do devir, conclui-se que morrer tem como seu oposto reviver, e vice-versa. Morrer é, portanto, passar do estado estar vivo para o estar morto, assim como reviver é passar do estado estar morto para o estar vivo. Existe, pois, um ciclo de nascimento, morte e renascimento. Mas, para que este ciclo exista, é necessário que, durante aquilo a que chamamos morte, a Alma esteja algures e, portanto, possua, neste período, uma existência separada, donde precisamente voltam para renascer. A morte é um estado provisório, passageiro, da existência da Alma – do morrer, renascer.
Sócrates: Ter uma alma desligada e posta à parte do corpo, não é esse o sentido exato da palavra morte?
Símias: É exatamente esse o sentido.
Sócrates: e os que mais desejam essa separação, os únicos que a desejam não são por acaso aqueles que no bom sentido do termo se dedicam à filosofia? O exercício próprio dos filósofos é precisamente libertar a alma e afastá-la do corpo. (Fedon, 67d).





Ruas arborizadas



Porque lugar de árvores é na calçada.


Há alguns anos, escutei em uma aula, uma professora de Geografia que disse:- Quanto mais pobre o bairro, menos árvores encontramos. Infelizmente, ela tinha razão. Mas há vários motivos pelos quais bairros pobres quase não têm árvores, sem contar também que infelizmente não faz muito parte da cultura do brasileiro, o cuidado com o paisagismo, com a urbanização e o cuidado com a estética das ruas.
Geralmente, nas periferias, a calçada é praticamente não têm espaço, e as pessoas mais pobres abdicam de uma árvore, para que tenham espaço para construir uma garagem. Outro fator que impede a cultura da arborização das ruas é a fiação aérea, muitas pessoas nem ousam em imaginar uma árvore em frente de casa, pensando nos transtornos que isso pode acarretar. Eu creio que seja necessário, educação e conscientização dos brasileiros, especialmente dos moradores das grandes metrópoles, porque nós precisamos de ruas arborizadas, também pelo lado estético, mas também pelos benefícios que uma rua arborizada pode trazer à população.


Eis aqui alguns benefícios do plantio de árvores em ambientes urbanos:


Muitos dizem que o plantio de árvores em ruas é algo impensável, pois geram problemas com as fiações elétricas, queda de folhas, etc. Mas a maioria das pessoas desconhece os inúmeros benefícios que a arborização de ruas pode trazer.
valorização imobiliária – um aspecto muito importante é a valorização dos imóveis situados em ruas bem arborizadas, pois queira ou não, os compradores preferem as ruas com árvores
redução do sol direto – o sol forte é tomado como um dos grandes problemas da maioria das ruas brasileiras, tornando pouco cômodo o passeio em ruas, que chegam a temperaturas e desconfortos insuportáveis na ausência de árvores.
maior conforto térmico – pode parecer que é uma afirmação precipitada, mas não é. Há uma regulação térmica das altas temperaturas. Isso se deve ao calor latente necessário para a evaporação da água da superfície das folhas. É um efeito semelhante ao do nebulizador ou do climatizador.
aumento da umidade relativa do ar – o ar excessivamente seco é uma das maiores causas de problemas respiratórios, além de problemas de pele. O ar seco favorece a permanência da poeira no ar, além de secar as vias respiratórias, sendo péssimo para pessoas com alergias. A evaporação da água da superfície das folhas das árvores, aumenta a umidade relativa do ar, no local onde ela se situa, o que pode ser muito benéfico.
atenuação sonora – é um fato cuja eficácia ainda não foi medida. Mesmo assim, há de fato uma redução das ondas sonoras, causada pelas folhas das árvores.
proteção no início de chuvas – no início das chuvas, a maior parte da água fica retida nas folhas da árvore, podendo servir de proteção. Só protege nos momentos iniciais da chuva, mas muitas vezes é o tempo de encontrarmos um abrigo seguro.




“O retrato de Dorian Gray” a partir das categorias Platônicas e de Plotino.






Na obra “O retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde podemos perceber desde o inicio vários conceitos, aos quais podemos fazer várias analogias com o pensamento de Platão e Plotino. Podemos perceber isso, logo no primeiro diálogo do filme entre o senhor Henry Wotton, um especialista na arte aristocrática, e o seu amigo, o pintor Basil Hallward.
Nesse primeiro contato entre as duas personagens, o senhor Wotton se encontra curioso sobre o mistério que envolve o novo quadro de Basil Hallward, e o elogia dizendo que essa sem dúvida é a sua melhor obra. No entanto esse quadro chama tanto a atenção de Henry Wotton que ele não consegue acreditar no primeiro momento que a pessoa retratada de fato exista. Quando Basil diz que colocou muito de si mesmo no retrato, Henry ironicamente diz que não há semelhança alguma entre o “Adonis” retratado e o pintor, e argumenta que Basil tem uma expressão intelectual, e isso destrói a beleza de qualquer rosto.
Em seguida, Henry Wotton conhece o belo Dorian Gray, e começa a incutir em sua mente o quão belo é o rapaz, e o adverte que a beleza é efêmera, e que até o tempo tem ciúmes de sua beleza. O interessante é que até o momento, o jovem e belo Dorian Gray não tinha essa preocupação com o tempo, em envelhecer e em perder sua beleza.
De acordo com o pensamento Platônico, poderíamos dizer que o jovem Dorian Gray, era bom e belo. No pensamento dualista de Platão, o belo em si habita o mundo das ideias, o mundo perfeito. Portanto no mundo sensível somos apenas participantes em maior e em menor grau do belo em si. Dorian Gray era privilegiado em ambos os aspectos, participava da beleza em alto grau no mundo sensível, pois tinha uma beleza física muito elevada, mas também possuía uma boa alma. Não podemos nos esquecer, que para Platão, o belo e o bom são indissociáveis.
O grande problema é que o mundo sensível é marcado pelas ruinas, ou seja, pela degradação, e o senhor Wotton fez o jovem Dorian Gray se dar conta disso, que sua beleza terá um fim, que não há como fugir desse destino. A partir desse momento Dorian se dá conta disso, e deseja com toda sua força eternizar sua juventude e beleza, e parece não se importar com as consequências que isso possa acarretar. Basil outrora já havia dito de forma profética, que toda a beleza de Dorian Gray não passaria de forma impune.
Para Plotino, não existe o dualismo Platônico. Porém Plotino acreditava que o belo é a aparência do Ser. O belo participaria também das emanações ( nous) alma e matéria. Ou seja, é possível que o belo esteja presente na matéria , o que é o caso de Dorian Gray, porém não há comparação com o belo do Uno, que é o belo em si. O uno é Deus (Ser), que se manifesta em graus de ontologicidade decrescente, até chegar ao grau mais degradante que é a matéria.
A matéria em Plotino, é quase um não-ser, ela é e não é ao mesmo tempo, porque ela existe, mas pode acabar. Portanto, a beleza física de Dorian Gray, seria apenas um reflexo distante do Belo e do Uno. E de acordo com o pensamento de Plotino, a partir disso, eu poderia intuir, ou melhor pressentir o Belo em si que é o Uno. O Belo no sentido material para Plotino é aristotélico e o belo inteligível é platônico. Quando Plotino pensa o belo de ponto de vista espiritual, ele pensa o belo no sentido do Bem, pois o belo é uma das características do Ser. Então podemos dizer que até o diálogo com Henry Wotton, o jovem Dorian Gray, era belo e bom. Possuía beleza física e tinha uma alma boa.
Então o jovem Dorian Gray faz o seu pedido de juventude eterna diante do gato que representa uma divindade egípcia, Dorian deseja permanecer para sempre jovem e belo, e que o quadro envelheça. E diz que daria tudo para que isso se tronasse realidade, inclusive sua alma. O que realmente ocorre, Dorian Gray, permanece belo e jovem, porém o quadro começa a sofrer a corrupção do tempo.
Podemos observar aqui uma inversão, se no pensamento Platônico, a alma é incorruptível, e não sofre a degradação do tempo, apenas a matéria padece desse mal, o contrário acontece a Dorian Gray, sua alma começa a se degradar. Outrora Dorian era belo e bom, sua alma era boa e seu corpo belo, agora seu corpo é belo e sua alma é má. No decorrer do filme podemos notar que Dorian Gray se tornou perverso e criminoso. Para Platão, o belo está necessariamente acompanhado do bem. Ao optar pela eterna beleza física, Dorian Gray desprezou o belo moral.
Para Plotino, a ideia que o belo e o bem são indissociáveis também é válida : “Por isto se torne cada um primeiro semelhante a Deus e belo, se ele deseja ver o bem e o belo. Primeiro ele vai na sua ascensão chegar ao espírito-intelecto e lá irá ver todas as belas ideias, e ele vai dizer, que as ideias são o belo. Pois tudo é belo através delas, através da criação e da essência do espírito-intelecto. O que está acima disto, nós denominamos a natureza do bem, o qual tem o belo como um cobertura diante de si, assim que ele, para resumir, é o belo original”.
Diferencia-se o espírito-intelecto, então iremos denominar o belo do espírito-intelecto o mundo das ideias, o que esta acima disto fonte do bem e princípio do belo. Ou então nós iremos definir o bem e o belo original como idênticos. Lá em todo caso está o belo.
Semelhantemente a Platão, Plotino também vê no amor a busca do belo, pois o feio, é contrario aos deuses e à natureza, pertence a uma ordem contraria. Porque a própria natureza deve sua gênese ao Belo. Mas os que se sentem atraídos, a gerar na beleza do corpo lhes basta a beleza aparente, o belo terrestre. Estes não conseguem elevar-se a beleza primaria não podem amar aquela senão como imagem distorcida desta, os que não podem elevar-se a tal reminiscência, ignoram a causa dessa paixao. Este é o caso do Jovem Dorian Gray.
No entanto, aquele que une a essa paixão o desejo da imortalidade que nossa alma imortal aspira, busca o Belo na atemporalidade (Dorian Gray, fez o contrário, buscou na temporalidade, no mundo sensível), e, agindo segundo a natureza busca a criação no belo, no eterno, pela afinidade que este tem com a Beleza. Pois a eternidade é aparentada a esta. Aquele que não possui por si mesmo a beleza, anseia tornar-se belo gerando em beleza.
Plotino diz que os que amam os corpos mortais transviam-se, deslizam e ficam perdidos pelo caminho, ignoram aonde os conduz o amor, aonde os conduz o desejo sensual das paixões,e esta foi a causa da decadência de Dorian Gray. Estes veneram a beleza terrestre e com esta se satisfazem, os outros, os que têm reminiscência da Beleza primeira, e não descuidam da beleza terrena, considerando esta apenas como reflexo da Beleza essencial, amam o Belo sem culpa, os outros, que buscam o belo na aparência, encontram por vezes o que é feio, pois o incorreto desejo do belo se transforma no mal, tal é o amor considerado como paixão da alma.
No final da obra de Oscar Wild, Dorian Gray se dá conta que ao contrário do que imaginava, a perene beleza física, apenas o prejudicou, em princípio foi de grande importância, mas aos poucos percebeu que ele as pessoas cada vez mais se afastavam dele, e que sua conduta moral cada vez mais ia se deteriorando. Dessa foram, ele decide “assassinar”, a sua própria figura degenerada no quadro, e o seu corpo físico volta a ser o monstro sórdido de acordo com as ações nefastas que havia praticado nos últimos vinte anos.
Se pudéssemos ter uma perspectiva platônica da morte de Dorian Gray, poderíamos apelar para a metempsicose platônica, e imaginar que Dorian Gray teria que voltar outras vezes a habitar um corpo físico, até que sua alma fosse regenerada, purificada, e então um dia a alma de Dorian Gray poderia voltar para o mundo das Ideias, onde poderá participar do belo, de forma perene e não perecível. Na perspectiva de Plotino, Dorian Gray teria que passar por um processo de ascese para um dia alcançar o Uno, e participar com mais intensidade de sua beleza.