terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A Imortalidade da Alma em Platão

Platão ao longo de sua vida convivera com diversas figuras do cenário político-cultural ateniense do (século V a. C.), Dada sua origem nobre pode compartilhar em sua juventude tanto da companhia de Crítias e Cármides (dois dos Trinta Tiranos). Há relatos de que conversava com Crátilo também na juventude, recebendo deste a influência do pensamento heraclítico. Entretanto, ao se tratar de Platão a sua relação mais próxima é com o mestre Sócrates.

Sócrates foi acusado de corromper a juventude e criar novos deuses para a cidade (difundindo idéias contrárias à religião tradicional), contudo, isso não foi empecilho para Platão deixar de relatar e analisar as teorias socráticas. Em suas obras a figura central é Sócrates. A injustiça cometida ao seu mestre dá o tom de algumas de suas obras, especificamente a do período inicial de sua produção literária conhecida como período socrático.
As noções de alma e corpo, morte e imortalidade estão presentes em quase todos os pensadores que lançaram as bases da nossa civilização ocidental. Elas entraram em nosso cotidiano por causa da fusão dessa tradição com a religião cristã. Mas ao investigarmos a origem dessas noções deparamos com a elaboração conceitual iniciada por Platão em seus diálogos. É no escopo dos textos platônicos que encontramos uma depuração de algumas teses que advém das doutrinas religiosas, principalmente o Orfismo e Pitagorismo, que mescla elementos filosófico-religiosos. O pensamento órfico influencia todo o pensamento sobre a alma posterior.


Desde o antigo mundo Grego até nossos dias permanece o desafio em busca de respostas diante da questão sobre a existência ou não da finitude da alma humana e a infinitude do Universo e da alma do homem descrita no Fédon, Diálogo de Platão (escrito por volta de 335/388 a.C.), sabe-se que o diálogo se baseia em fato real: o dia da morte de Sócrates, o que nos faz vislumbrar um tom enigmático.


Platão nos leva por uma via onde o fio condutor tem suas raízes no pensamento pré-socrático, a partir da teoria dos contrários, passando por um argumento filosófico e religioso, a reminiscência, já tratada pelos Pitagóricos e Órficos até chegar a sua Teoria das Formas, em análise aos ditos de Heráclito, Parmênides e Anaxágoras. O estudo dos argumentos sobre a existência da alma racional e imortal, descrita como o estudo do caminho para o encontro com o Bem em si, ou Dialética que para Platão é a técnica da investigação conjunta, ou seja, feita por mais de um personagem, que consiste em compor e decompor idéias, conduzindo os participantes a reunir as idéias dispersas numa idéia única – a Idéia do Bem em si.
Para Platão o uso da Dialética é o que qualifica o Filósofo como sendo aquele que busca a Verdade em si. O Filósofo é aquele que exercita a Dialética; é aquele que vai a busca da Verdade que está no Uno. Do múltiplo ao Uno, sempre. No Fédon a dialética aparece muito sutilmente na busca argumentativa que passa pela teoria dos contrários, pela teoria da reminiscência, porém somente através da dialética é que se dá a transposição do abismo que separa o sensível do inteligível, ou seja, a Dialética define o jogo do logos como possibilidade de refletir o mundo das Formas. É através do exercício Dialético, de ascese para o conhecimento, que está inserida a questão da vida e da morte no Fédon.
Platão através do mundo das formas justifica a existência do mundo das coisas sensíveis. O mundo sensível, acessado pelos sentidos e o mundo inteligível, concebido mentalmente. Para Platão a alma parece freqüentar os dois mundos. Quando está num corpo, pertence ao mundo sensível. Quando sai do corpo, na morte, habita o lugar daquilo que nunca se corrompe. Possui assim uma natureza de permanência e movimento; um ser sendo o que é. Esta dupla condição será explorada no Fédon, na busca da prova da existência da alma e sua condição e similaridade com tudo aquilo que nunca se transforma, e que lhe dá uma condição de divindade, pois, assim, e em comparação, tem os mesmos predicados que teria a Forma, bem como, mesmo sendo similar à Forma que é imutável é, em si, o próprio movimento.
À Esquerda Platão, e à Direita Aristóteles, no famoso quadro Escola de Atenas de Rafael Sanzio

A Teoria das Formas é o argumento que, sempre em graus variáveis, aparece na maioria das obras de Platão e, naturalmente, no Fédon, cujo subtítulo é o Da Alma. Pois, é neste diálogo que o filósofo compara e argumenta sobre as características da Forma e a sua similaridade com a Alma de modo mais complexo.
Os argumentos acerca da natureza da alma e sua existência, demonstrados através da fala de Sócrates, num momento em que estava preste a deixar o seu corpo é conduzido de modo a esclarecer porque a alma aceita o corpo, mesmo que por um determinado tempo; visto que o corpo não é da natureza da alma, sendo esta incorruptível enquanto o corpo está sujeito à mutação e transformação. O fundamento da metafísica platônica é fortalecido através desta capacidade da alma de habitar dois mundos, o sensível e o supra-sensível, demonstrando a sustentação da Teoria das Formas ou das Idéias. A Teoria das Formas demonstra conceitualmente o mundo inteligível, e faz deste a razão de ser do que é sensível. A alma representa, na teoria, o problema que se resume: sendo a alma eterna e racional é, igualmente, prova maior de um processo, pois é o próprio movimento.
A Teoria dos Opostos, ou seja, Teoria dos Contrários Excludentes pode ser considerada como o primeiro argumento no caminho da prova de que a alma é anterior a vida humana e que possui o dom da imortalidade, sobrevivendo a destruição do corpo. A este argumento segue-se o argumento da reminiscência, ou anamnesis, por fim vem o terceiro argumento que é o da semelhança entre a Alma e as Idéias. Este argumento visa provar que a Alma não só preexiste ao corpo (tese que Sócrates conseguiu fazer vingar com o 2º argumento), mas também sobrevive a este depois da sua morte, já que os seus interlocutores: Símias e Cebes, levantaram dúvidas quanto a esta questão, afirmando que a Alma dissipar-se-ia, provavelmente, depois da morte do corpo. Sócrates começa por perguntar quais são as coisas passíveis de se dissiparem, e quais aquelas em que nós tememos que isso acontecesse, sempre, obviamente, com o objetivo de provar que a Alma não se dissipa.
O Filósofo prossegue depois a dividir os seres em duas classes: os compostos, que tem mais probabilidade em dissiparem-se nas substâncias que os compõem, e que são mutáveis; e os simples, que sendo compostos por apenas um elemento, são menos susceptíveis de se dissolverem, já que estão reduzidos à sua natureza mais simples, estando isentos de sofrer tal processo, e que são imutáveis, portanto, Sócrates tendo conseguido a concordância dos seus pares neste assunto, avança para classificar a “realidade em si” ou seja, o mundo das Formas/Idéias, chegando à conclusão que este é imutável e “Idêntico em si”, já que, como se provou no 2º argumento (da anamnesis), as Idéias de Igual, Belo, são universais (no plano racional, não no sensível).
Após sua morte, a alma de Sócrates é imortal, e livre.
Portanto, se o mundo das Idéias é imutável, a sua natureza é simples, donde podemos deduzir que: os seres simples, não só são imutáveis, impassíveis de se decomporem, mas também são invisíveis, já que as Idéias não se vêem, recordam-se, e também perfeitos, porque as Idéias o são e estas são seres simples (não se decompõem e são invisíveis). Provado também este ponto, Sócrates prossegue para concluir que tudo aquilo que é sensível é imperfeito, logo composto, já que é passível de mudança e de transformação.
O argumento sobre as causas da geração e corrupção, que entendemos está dividido em duas vias argumentativas: a que trata da questão da participação e a que trata, em maior profundidade, da própria teoria das Formas.
Provar a existência de uma alma imortal, não prova a racionalidade da alma, ou seja, se esta alma imortal é individual, diz apenas que a morte substitui a vida e, a vida substitui a morte. Platão tenta provar no diálogo, que a alma seria um ser imortal, detentor de inteligência e movimento e esta afirmação: ser a alma imortal, é que dá a Sócrates no Fédon conforto no momento da morte, pois, lhe é acenado pelo logos, a possibilidade de uma existência bem aventurada no pós-vida. Entretanto, esta disponibilidade será apenas para a alma que, até o fim do tempo do corpo, foi pura e temperante e que persistiu no caminho da Virtude e da Bondade, o que para Sócrates, é a prática da filosofia. A alma que buscou a contemplação da Virtude em si. Este argumento vem após uma narrativa introdutória que levou o leitor ao cárcere onde está Sócrates e abre uma série de questões envolvendo a perspectiva da morte e as conseqüências do pós-morte.
No Fédon, Platão através de Sócrates tece argumentos em um debate cujo objetivo é levar os ouvintes a aceitar como possível o argumento que afirma ser a alma um ente imortal e que a mesma permanece racional após a extinção da dualidade corpo e alma. Sócrates, entretanto realça a Teoria dos Contrários levando a evidência que os opostos (vida/morte) são excludentes, visto que a morte é antagônica à vida. O processo que vai do nascer ao morrer, tem dois limites distintos: a vida, que vem da morte, e a morte que vem da vida. Entre esses dois momentos distintos (vida/morte) existe uma etapa (viver), onde um ser perfeito e eterno (a alma) partilha existência com um ente corruptível e fadado à destruição (o corpo). Sócrates argumenta que o dever do Filósofo é refletir a respeito da (morte/vida) como momentos antagônicos e excludentes e, feitas as comparações, obter como resultado a prova (primeira) da imortalidade da alma, uma realidade que antecede, transcende e perpassa o viver.
Para Platão o argumento dos contrários excludentes passa por uma investigação das oposições que ocorrem no mundo sensível mostrando as divergências encontradas entre este mundo, das sensações, e o mundo inteligível, concluindo que dos seres vivos procedem aos mortos e dos mortos procedem aos vivos. A Forma precede e prevalece ao objeto ou a cópia.
Platão desenvolve uma teoria da imortalidade da Alma tendo como alicerce uma comprovação fática: em um mesmo ser não se podem reunir predicados contrários e é de um contrário que vem o seu contrário, o Belo vem do Feio, o justo vem do Injusto, a Vida vem da Morte, etc. A Alma é que, como Forma, tem a eternidade entre os seus predicados. Assim, a Forma Vida sempre será antagônica a Forma Morte, como o Ser e o Não Ser são antagônicos.
O argumento dos contrários excludentes vem demonstrar um estado de alternância no que observamos com os nossos sentidos ou aceitamos com a nossa razão. A força do conjunto dos argumentos no Fédon é que sustenta a questão de ser a alma imortal, e que esta antecede e precede o corpo, não sendo destruída com este, nem tampouco apenas nasce nova a cada encarnação, mas persiste por todo o tempo, como entidade personalíssima e individual.
A prova dos opostos está, no diálogo, conjugada à prova da reminiscência, como parte indissociável, donde a alma é imortal e tem em si o logos, o que será lembrado por Sócrates. Deste modo, o que Platão almeja com o argumento dos contrários, na ordem posta no Fédon, é preparar o leitor para o entendimento do mundo das Formas, o que para ele, representa a Realidade em si, a Verdade em si, o Bem em si, e Conhecimento em si, aquilo enfim, que a alma contempla e se lembra, provando a sua permanência e individualidade. O antagonismo alma/corpo ou vida/morte é a parte visível, a olho humano, desta relação Forma/Simulacro, sendo este último o ente sujeito à corrupção.
O argumento dos contrários excludentes vem apenas provar um processo de vir a ser do corpo, como muitos argumentos emprestados por Pitágoras, Parmênides, Heráclito acrescendo a questão da permanência da alma como recebedora da Forma da Vida, que tem em si a imortalidade, e, portanto, não é suficiente para comprovar a permanência de uma alma racional sozinha. Por este motivo o Filósofo fará das lembranças mais um argumento da prova da imortalidade da alma. Para Platão, o conhecimento não é fruto da aquisição, mas um exercício de recordação. Uma recordação privativa da alma racional. A teoria da reminiscência se junta com outros argumentos a fim de provar se a alma é de fato imortal e personalíssima. Aprender seria para Platão um relembrar, e, a luta pelo relembrar é a obrigação do Filósofo, que é aquele que reconhece, quando confrontado, o que não foi plenamente esquecido e sabe que o seu destino, e obrigação, é percorrer os caminhos que levam ao Conhecimento em si, sendo, pois, sujeito inevitável de um processo chamado relembrar. Desse modo, este seria o primeiro passo para aceitar a teoria da anamnesis, ou da reminiscência, como argumento válido para a comprovação da imortalidade da alma, ou seja, a aceitação de que não existe, para o homem, o conhecimento. O conhecimento que ultrapassa a morte, e somente a alma, ser imortal, pode ter acesso, e que só poderá está acessível ao homem, através das lembranças deixadas no fundo da alma, sendo desveladas como segredos esquecidos, através da reminiscência de forma a encaminhá-lo ao encontro do Bem em Si.
Academia de Platão: mosaico de Pompéia, agora no Museu Arqueológico Nacional (Nápoles)
Em resumo, antes de nascermos, temos o conhecimento pleno porque, quando Forma, participamos do mundo das Idéias e das Formas perfeitas. Porém, ao nascer, esquecemos, recebemos uma cópia imperfeita (o corpo), que apenas vê sob a força e auxílio de órgãos sensíveis, cópias imperfeitas. A razão, por outro lado é o caminho que nos permite tentar visualizar o mundo dos entes inteligíveis, esta visualização se faz pela recordação daquilo que foi visto pela alma, a nossa parte incorruptível e indestrutível. E, por fim, a obrigação do Filósofo, é tentar voltar a lembrar, tentar ver: o Igual em si, o Belo em si e a Realidade em si.
A morte de Sócrates estaria vinculada à noção de participação do Bem, pois, como ele mesmo afirma, é a noção do bem, que traz na alma, que o impede de fugir e o faz submeter-se às leis da cidade, mesmo que isto signifique a sua morte, pois este é o destino dos filósofos, perseguirem sem tréguas o Bem em si, encontrando virtude no cumprir a norma da Polis, mesmo que esta lhe pareça injusta.
Todos os processos de devir comportam reciprocidade na geração de contrários. Logo, o devir é uma alternância cíclica de opostos. Por exemplo, ao aquecimento o arrefecimento, ao aumento a diminuição, etc...Estabelecendo estas duas premissas o devir como uma alternância cíclica entre contrários, é forçoso verificar que também a morte nasce da vida e a vida nasce da morte, e a sucessão destes estados (vida-morte, morte-vida) exige, como sua condição que as almas persistam algures para voltarem a reencarnar, pois, se “estar morto” e “estar vivo” são contrários, também aqui existe devir.
Assim, se é certo que o que vem do estar vivo é o estar morto, é necessário que do estar morto venha o estar vivo. Logo e para complementar o processo do devir, conclui-se que morrer tem como seu oposto reviver, e vice-versa. Morrer é, portanto, passar do estado estar vivo para o estar morto, assim como reviver é passar do estado estar morto para o estar vivo. Existe, pois, um ciclo de nascimento, morte e renascimento. Mas, para que este ciclo exista, é necessário que, durante aquilo a que chamamos morte, a Alma esteja algures e, portanto, possua, neste período, uma existência separada, donde precisamente voltam para renascer. A morte é um estado provisório, passageiro, da existência da Alma – do morrer, renascer.
Sócrates: Ter uma alma desligada e posta à parte do corpo, não é esse o sentido exato da palavra morte?
Símias: É exatamente esse o sentido.
Sócrates: e os que mais desejam essa separação, os únicos que a desejam não são por acaso aqueles que no bom sentido do termo se dedicam à filosofia? O exercício próprio dos filósofos é precisamente libertar a alma e afastá-la do corpo. (Fedon, 67d).





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